Meu amor,
Como é pleno ter a quem chamar assim. Segura e
naturalmente, com a doçura e zelo que só quem ama de verdade é capaz de colocar
na voz ou nas palavras. O que escrevo já foi dito, redito, prometido,
reprometido, sempre com a intenção de dar mais uma chance a nós nesse novo
ciclo que estamos nos propondo a viver. Mais uma tentativa de nos reinventarmos
em dupla. Te confesso que essa última me parece mais dificil. Como tendem ser
as próximas. Porque o tempo é implacável e além nos roubar toda a leveza da
infância e a ousadia da adolescência, nos tira também a paciência, a graça, os
impulsos, a intensidade dos arrepios. O que não podemos deixar fugir de nós é a
capacidade de ter esperança.
Assim como as pessoas, o amor e o relacionamento
também envelhecem.
Como os cabelos, os olhos, a pele e os músculos. É preciso
maquiagem nova para disfarçar incertezas, cores e formas para surpreender,
cremes potentes para eliminar o medo da traição, da mentira, do desrespeito. Um
peeling milagroso que arranque das entranhas a insegurança. Sempre o início de
todo o fim. Como um corte de cabelo radical, que a faça se olhar no espelho e
pensar que as próximas horas vão rolar de um jeito diferente e melhor.
O que fazer com o fato de que as pessoas não podem e
nem aguentam serem propriedades umas das outras, se não aceitá-lo? Todas as
pessoas são diferentes. Cada uma delas tem suas particularidades, necessidades
e movimentos próprios em relação ao outro e aos outros. Mas ninguém é tão
diferente assim que não sinta vontade de estar perto de outras
pessoas, se divertir, trocar idéias, quem sabe sentir desejo por outro alguém.
No relacionamento é preciso deixar a vaga livre para essas sensações porque em
algum momento da nossa história de amor, hão de acontecer congestionamentos
afetivos e sexuais. Que não acontecem a toda a hora com gente que ama. Apesar
de perigosos, esses momentos são os responsáveis pelos novos ciclos daqueles
que ainda querem ser felizes juntos. Servem para a gente se conhecer mais, para
nos tornarmos mais fortes, seguros, cúmplices e certos das nossas
escolhas.
Ou não.
O que um sente, ou faz, vai acabar respingando no outro. O amor só é bom quando ele é milimetricamente bilateral.
Ou não.
O que um sente, ou faz, vai acabar respingando no outro. O amor só é bom quando ele é milimetricamente bilateral.
No convívio, na rotina, na cama, na hora de gostar de conversar, de
aprender, de rir, de chorar e de cuidar.
O amor só é bom no instante em que se tem a absoluta convicção de que se está com quem se quer estar. Se a gangorra pende pra um dos lados, em vez de a brincadeira ficar mais divertida, o amor tropeça.